18.10.06

O LEGADO

As nossas tentativas tem uma força gigantesca sobre nosso futuro...acredito mesmo nisto, não tanto como Thomas Edson que depois da milésima era positivo ao pensar nos mil erros que ele conhece e que não deram certo. Mas acho que a beleza do exemplo de Edson,e que meus olhos valorizam agora, não é a luz ou sua persistência, mas a habilidade de ver o que ele não dá certo, saber o que não queremos já é um passo importante para delimitarmos o que somos e construir o que queremos.

E o que afinal as tentativas tem a ver com nosso futuro?! As nossas tentativas tem a ver com o que nós somos, com todo este histórico de coisas, pessoas, experiências que vivemos e nós faz tão assim...próprios na arte de ser nós mesmos...é isto mesmo, as nossas tentativas são o nosso passado, nossa marca registrada e nosso mundo de valores e coisas que eu escolhi para amar e para ter e para mudar e para refletir.

O fato é que sabemos que mesmo estando no mesmo lugar que alguém ( por aquele determinado e curto período) ninguém nunca tomou o mesmo caminho que o nosso, trilhou as mesmas experiências e enfrentou as mesmas alegrias e dificuldades que a gente, e a gente se sente assim tão único e subjetivo e não se recorda deste pequeno detalhe quando fazemos uso de nossa tirania ( e certeza de estamos sempre corretos e que somos a verdade que nunca muda) para julgar os demais e querer que as pessoas vejam o mundo como é o nosso, como se tivesse adquirido a mesma visão de mundo que a gente....

Enxergar o mundo pelo olho do outro existe uma coragem extrema de não se colocar como ponto de partida de nada. Não quero assumir a responsabilidade de pensar como outro e sair de minha consciência pra entender os demais, mas é só reconhecendo que cada um é o que é _ ou está sendo o que está numa concepção Freireana, e tem o direito de Sê-lo - ou está-lo, que posso também me reconhecer única, com direitos e visões de mundo diferenciadas, que mudam e mudam e mudam porque estão " vivas".

Hoje acordei pensando no legado que o Feminismo na década de 70 nos deixou. Nos deixou o poder - ou a possibilidade dele, a ascenção, o direito de opinião e a ilusão de liberdade...a ilusão que nós poderíamos escolher tudo isto ou um mundo de coisas mais...e "se esquecemos" que as nossas experiências e vivências também transformam o que somos...e nós fomos criadas como meninas, como aquelas que ainda querem proteção e afeto.

Eu não tenho a ilusão de que tomo decisões sobre as minhas tentativas ( e o que farei delas) sozinha, de que tenho tal liberdade e que não estou sendo influenciada com a minha criação ou com o conhecimento " feminístico" que adquiri desde que pude ler, mas confesso que estou me dando o direito de estar sozinha sim, porque não estou apaixonada, porque tenho foco no meu trabalho ou qualquer desculpa mais, ou por simplesmente querer estar sozinha. Eu sei que eu não me basto e nem quero não viver em comunidade, mas esta visão de que grande parte do que preciso para viver e ser feliz está bem aqui..dentro de mim tem me encantado cada dia mais e é com este encantamento que quero viver cada parte desta fase ( tvz linearmente começo, meio e fim). Eu nunca estive tão confortável neste meu corpo e mente e talvez seja por isto que por esta noite eu decido deixar em casa, não a capa da super poderosa, mas o casaco de frio de proteção....

Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: Quero é uma verdade inventada. clarice Lispector

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